Non Stop! Entrevista com a empreendedora Letícia Batistela

Non stop. Se há uma expressão que define Letícia Batistela, é esta. Vice-presidente da Federação das Associações das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (ASSESPRO), da qual já foi presidente da regional Rio Grande do Sul, ela também é coordenadora da Câmara de Propriedade Intelectual e Tecnologia da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul, membro do Conselho de Administração da Companhia de Processamento de Dados de Porto Alegre (Procempa), mentora do Women in Law Mentoring Brazil (WLM) e, em meio a isso tudo, comanda sua empresa, a LB Consultoria Jurídica em TI.

Ao longo da carreira, Letícia já ocupou outros cargos de liderança: foi presidente do Conselho das Entidades de TI do RS (CETI) e diretora Jurídica da Associação dos Usuários de Informática e Telecomunicações do RS (SUCESU-RS).

Tudo sem deixar de lado outra grande atribuição: a de ser mãe.

Em entrevista exclusiva para o nosso blog, Letícia conta um pouco de sua história e mostra, no Dia Internacional da Mulher, desafios que podem ser compartilhados com todas, ações para superá-los e lições que o caminho a ensinou. Confira!

iPlace – Você escolheu fazer carreira dentro de um mercado desigual no Brasil: o Direito, no qual as mulheres formadas ocupam quase o mesmo percentual (48%, segundo a OAB) do que os homens, mas os cargos de liderança são majoritariamente deles e os salários têm discrepância entre postos ocupados pelo sexo masculino, em relação ao feminino. Como é trabalhar neste âmbito? Quais os principais desafios enfrentados?

Letícia – Eu tive a sorte de crescer em uma família que sempre me incentivou e me mostrou, através do exemplo, que a única forma de conquistar meus objetivos era por meio do estudo e do trabalho duro, independente do gênero masculino ou feminino. E acredito que esta base familiar me preparou para enfrentar todos os desafios.

Sempre fui inquieta, questionadora, e busquei uma formação que não me prendesse a um modelo formatado. Escolhi a faculdade de Direito por achar que eu teria um instrumento para transformar, para fazer acontecer. E o Direito, apesar de uma profissão tradicional, traz um mundo inesgotável de possibilidades.

Essa minha percepção comprovou-se já no primeiro escritório em que trabalhei, aos 22 anos, quando tive contato com uma área pouco desbravada, o Direito da Tecnologia. Atuei por 5 anos representando a Microsoft em ações de propriedade intelectual no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Atuava na linha de frente nas ações de busca e apreensão e adorava a adrenalina diária.

Descobri que os desafios me fortaleciam e cada vez mais fui me sentindo segura e confiante, desenvolvendo as minhas potencialidades. Eu comecei a trabalhar nesta área antes da Lei de Software vigente, que data de 1998, e ajudei a construir jurisprudências e uma cultura na área. Esse ambiente de inovação, de conquistas, sempre me motivou a ser mais e acho que esse brilho no olho transcende a qualquer gênero, a qualquer dificuldade.

 

iPlace – Tecnologia é outro mercado discrepante: apesar de ter, segundo dados da Softex, um déficit de mais de 48 mil profissionais no país, o setor ainda emprega poucas mulheres (são 20% dos profissionais da área, de acordo com a ABES) das quais, mesmo em cargos equivalentes aos masculinos, chegam a ganhar até 30% a menos que eles. Em sua avaliação, por que estas diferenças ocorrem neste mercado? E o que é necessário para reverter este quadro?

Letícia – Sim, o mercado de TI é maciçamente masculino. E sim, o machismo existe e ele parte de homens e mulheres. Mas vocês sabiam que o primeiro algoritmo foi criado por uma mulher, em 1842 – a matemática e escritora inglesa Ada Lovelace?

Ou seja, já dominamos o mercado de tecnologia! Acredito que seja uma questão cultural, criou-se um paradigma de que a mulher não é suficientemente boa em matemática e isso é repetido através de vieses inconscientes para nossas filhas.

Vou dar um exemplo que elucida esta questão. Há algum tempo eu estava no corredor de um grande supermercado de Porto Alegre, que divide os brinquedos por gênero. Lado esquerdo, brinquedos para meninos, e lado direito, para meninas. Uma menina com uns 3 anos de idade caminhava pelo corredor escolhendo um brinquedo, acompanhada da mãe, mirando no lado esquerdo do corredor. Quando abraçou uma potente retroescavadeira amarela, a mãe imediatamente tirou o brinquedo da mão dela, virou-a para o lado direito e disse: o teu lado é esse, entregando-lhe uma boneca na mão.

Um fato simples, do nosso cotidiano, que mostra que somos condicionadas a fazer nossas escolhas, que nem sempre são fruto de livre arbítrio. Entendo que esse exemplo ilustra o paradigma de que somos ruins em matemática. Fomos suficientemente condicionadas a isso e nosso papel como pais, professores, mentores é reverter esse quadro.

 

iPlace – Desde cedo, sua carreira é um exemplo de lideranças assumidas. Quais foram os passos certeiros nesta trajetória de sucesso? Quais foram as características que te alçaram a tais postos?

Letícia – Eu acredito que para ocupar cargos de liderança, o profissional deva, em primeiro lugar, ter auto respeito e não deixar ninguém se sentir confortável em te desrespeitar. Claro que essa autoconfiança deve ser desenvolvida, principalmente nas mulheres, mas entendo também que faz parte de uma decisão pessoal se colocar em primeiro lugar.

Ninguém vai tomar esta decisão por nós, simples assim. Tomada esta decisão, tudo fica mais fácil.

Sou a primeira mulher a ocupar o cargo de VP de articulação Federação ASSESPRO e isso é uma grande honra, pois minha caminhada na maior entidade representativa do setor de tecnologia do país vem desde o ano 2000, quando assumi a diretoria jurídica regional, convidada por um cliente que era VP da entidade.

Já a Federasul é comandada hoje pela grande Simone Leite, um exemplo de protagonismo feminino transformador. Recebi com muito orgulho o convite dela para fazer parte do Conselho Consultivo Superior desta grande entidade e tenho participado ativamente da agenda propositiva que ela comanda.

Mulheres gostam, sim, de ver mulheres ocupando estes cargos e, se continuarmos a incentivar a chamada competição feminina…. Perderemos nós.

O WLM foi extremamente transformador para mim, que nunca me senti representada por quaisquer movimentos femininos, pois eu simplesmente não entendia porque ser mulher poderia ser um fator limitador no mercado de trabalho. Simplesmente não é a minha realidade. Mas aí vieram os gráficos, os números e a assustadora realidade dos cargos de liderança serem ocupados maciçamente por homens, apesar do grande número de mulheres na base da pirâmide de carreiras jurídicas.

Somos maior número, investimos muito mais em nossa formação. Por que morremos na praia? São fatos, e contra fatos, não há argumentos. Como mudar este panorama? Culpando a sociedade, as empresas ou os homens? Não! Através de um programa de mentoria sério, idealizado e fundado por grandes advogadas, que têm paixão por transformar e uma generosidade ímpar.

Um programa que capacita e desenvolve jovens advogadas, as responsabilizando sempre e as desafiando a serem a sua melhor versão.

E, para coroar a minha participação em entidades, ano passado surgiu o Gurias da TI, grupo de profissionais da área de tecnologia e afins que hoje é denominado Women in IT Inspiring. É formado por um super time de mulheres cujo objetivo é inspirar outras mulheres a entrar no mercado de tecnologia. Mais um grande desafio.

Eu acredito muito no associativismo, herança genética do meu pai, que me fez descobrir cedo que sozinha não posso transformar o mundo. Por isso me alio aos bons e assim sigo lutando pelo o que acredito para transformar o mundo em um lugar melhor.

 

iPlace – Mesmo com tantas atribuições, não podemos esquecer um outro papel importante na sua trajetória: o de mãe. Como foi conciliar a maternidade com todas estas incumbências e, ainda assim, construir uma carreira sólida e bem-sucedida?

Letícia – Ser mãe sempre foi uma certeza para mim e meu filho nasceu quando eu estava iniciando a minha carreira, aos 24 anos, cheia de sonhos e projetos incubados. Como conciliar todas as minhas expectativas profissionais com um bebê lindo, cheio de energia? A resposta que encontrei foi muito amor pelo meu trabalho e a certeza de que eu seria uma mãe melhor se fosse uma pessoa feliz e realizada.

E realização, no meu caso, passava obrigatoriamente pela dedicação à minha carreira profissional. Eu sempre tive essa certeza, a minha alegria e realização seria o melhor exemplo que eu poderia dar ao Matheus. E eu, efetivamente, me dedico aos meus projetos profissionais; nunca usei minha família como pretexto, porque eles sabem que o trabalho faz parte da conquista da minha felicidade e é uma conquista diária e muito prazerosa.

E, no meio do turbilhão que é equacionar os vários papeis a que me propus, a minha estratégia se comprovou quando meu filho disse, em uma pesquisa do colégio, que não sabia o que seria quando crescesse, mas que queria sair feliz para trabalhar todos os dias “como a mãe dele”.

Pois então. Não existe recompensa maior do que o legado que o trabalho não é um fardo, e sim é um combustível para nossa felicidade.

 iPlace – Que conselhos daria às mulheres que estão desbravando o mercado agora – passos a adotar, dicas, posturas a manter frente à desigualdade, lições, enfim: o que ressaltas como itens básicos para vencer?

Letícia – Incialmente, não existe uma separação entre a vida pessoal e profissional, por isso a escolha do parceiro de vida é fundamental, ainda mais no caso da mulher optar por ter filhos. Porque sim, hoje conquistamos o direito de optar, não é mais uma obrigação.

Este parceiro deve ser alguém que vê sua carreira como tão importante quanto a dele e que dê à família e ao cuidado com ela a mesma importância que você.

Invista no seu autoconhecimento, você precisa saber das armas que dispõe para alcançar seus objetivos e elas estão dentro de você, pode ter certeza disso.

Quebre o chicote e para de se culpar, não há espaço para este tipo de comportamento no topo da pirâmide.

Você tem que assumir seu lugar à mesa. Se você quer sentar à mesa principal, não chegue em uma reunião importante e sente à mesa secundária ou espere todos sentarem para ocupar a cadeira que sobrar. Você tem de se posicionar e realmente acreditar que é merecedora  de estar ali, que é competente o suficiente para ter o sucesso que busca. Aliás, se você não tomar a iniciativa, outros não farão por você. Simples assim.

O conhecimento é libertador, invista na sua formação, ela é a chave do seu sucesso e da sua independência.

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