Música para embalar sonhos, vidas e a sociedade

A música pode mudar o mundo? E uma pessoa por vez?

 

As respostas são sim e sim, mas há muito que entender e explicar para chegar a tais conclusões. Em todas as suas formas e expressões, a música permeia do entretenimento à história, da comunicação à integração social, da motivação à superação de limites, e é um campo aberto para a ampliação dos horizontes culturais.

Quem fala sobre isso é o musicólogo Ivan Fritzen Andrade. Apaixonado pela música, estuda desde os 06 anos, é mestre em Etnomusicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e lidera projetos como o “Baxtale! – Pesquisa Musical Romani”, além de atuar em outras iniciativas que apoiam e abrem espaço para a diversidade, como a etnografia acerca da prática do canto de coplas com caja por mulheres indígenas anciãs, realizada em Tucumán, Argentina, e o fomento da colaboração entre rappers haitianos em Porto Alegre-RS.

Do rap ao jazz, do rock ao funk, do sertanejo ao clássico: se você curte música, esse papo é com você.

 

Você é musicólogo, especialista no estudo científico, na pesquisa, da música. Explique sobre o que é esta ciência.

A Musicologia foi estabelecida enquanto disciplina autônoma no século 19, na Europa, e é um campo bastante amplo, com uma série de subdivisões, relacionadas ao estudo de aspectos musicais específicos. Por exemplo, temos a Musicologia Histórica, dedicada a trajetória de compositores, ao desenvolvimento dos gêneros musicais e às formas como se davam suas performances em determinado lugar e época.

Por outro lado, temos a Musicologia Sistemática, considerada um ramo interdisciplinar da Musicologia, por abarcar o estudo da estética, acústica, semiótica, teoria musical, dentre outros. Como uma de suas subdivisões, encontramos a Musicologia Comparativa, que tinha por objetivo identificar características musicais universais, mediante coleta, transcrição, classificação, mapeamento e comparação de repertórios de diferentes culturas e regiões.

 

Você tem Mestrado em Etnomusicologia e atua na área há muitos anos. O que vem observando, em termos de impacto, da musicologia e do estudo da música sobre a sociedade? É possível criar ou mudar sensos críticos por meio da música?

A questão referente ao impacto dos estudos acadêmicos, de suas contribuições críticas e de sua utilidade para a sociedade, tem sido objeto de preocupação para muitos pesquisadores. Desde a virada pós-moderna entre os anos 80 e 90, tanto a Musicologia como a Etnomusicologia avançaram consideravelmente em termos teóricos. Desde a última, por exemplo, há uma crescente tendência de busca por relações mais simétricas entre pesquisador e pesquisado, pautando os trabalhos por perspectivas colaborativas, dialógicas, aplicadas e participativas, que, acredito são imprescindíveis para gerar mudanças de sentido crítico acerca da música. Por outro lado, desde a perspectiva daqueles que fazem música, parece-me evidente a sua utilização como ferramenta de conscientização e crítica social, vide exemplos do samba, rap, rock, funk e muitos outros gêneros musicais.

 

Quais as especificidades da etnomusicologia?

A Etnomusicologia se estabeleceu nos anos 1950, nos EUA, como alternativa à então, Musicologia Comparativa, tendo, com a publicação de “Anthropology of Music” (1964), por Alan Merriam, se caracterizado pela etnografia – ou seja, o trabalho de campo de cunho antropológico – enquanto sua marca fundamental. Por esta premissa metodológica norteadora, a Etnomusicologia se ocupa na problematização das relações entre músicos, suas práticas musicais e as sociedades em que estão inseridos, desconstruindo criticamente perspectivas etnocêntricas, de modo a elucidar a complexidade da música enquanto fenômeno social inscrito em contextos culturais específicos.

Em sua expressão contemporânea, os trabalhos da disciplina têm sublinhando as dimensões de gênero, etnicidade, política, violência e resolução de conflitos implicadas nas performances musicais.

 

Quais os principais benefícios que um estudante/profissional de musicologia pode trazer para si e para a sociedade?

Eu comecei a estudar violino aos 6 anos de idade e cheguei à Etnomusicologia como um instrumentista com formação na música erudita ocidental de matriz europeia, intensamente curioso por músicas outras que aquelas com as quais me ocupei desde cedo. A partir do aprofundamento no referencial teórico Etnomusicológico/Antropológico, considero que me tornei um músico mais crítico acerca de meu lugar e papel na sociedade.

Como estudante, acredito que o maior benefício seja a ampliação dos horizontes culturais, oportunizando a aquisição de uma escuta crítica e reflexiva acerca da música, enquanto fenômeno social.

Como profissional, me considero responsável por tornar públicas as reflexões oriundas das formas de escuta exercitadas na prática científica, convidando a sociedade a experimentar “pontos de escuta” para além do senso comum predominante.

 

Na sua opinião, a música tem poder transformador, em termos sociais e globais?

A música constitui-se, efetivamente, como elemento central à construção identitária. Por meio da música, indivíduos encontram a possibilidade de afirmar e transformar entendimentos de si próprios em processos que podem manter-se mais restritos ao nível comunitário local, bem como adquirir dimensões coletivas globais.

Há cerca de um ano mantenho interlocução com Mechandou Pa Jwe, um rapper haitiano que reside com sua família em Porto Alegre. Quando o conheci, ele estava com suas atividades musicais suspensas, pela falta de contatos, e vivia em certo isolamento em um bairro na periferia da cidade. Durante nossa primeira conversa, ao declarar-se cantor e fazer-me escutar algumas gravações suas, produzidas antes de vir ao Brasil, me dispus a ajudá-lo na divulgação de seu trabalho musical, bem como no estabelecimento de uma rede de contatos com outros músicos.

Algumas semanas após nosso primeiro contato, consegui agendar uma performance de Mechandou na Feira de Hip Hop de Porto Alegre e, a partir deste evento, pudemos estabelecer conexão com demais rappers haitianos que vivem na cidade. Desde então, a comunidade de imigrantes haitianos tem se reunido, com alguma frequência, em eventos que têm como atração principal as performances musicais destes cantores. É interessante observar a presença, em tais eventos, de músicos brasileiros, da cena local, que participam das performances em colaboração aos haitianos.

Acredito que este caso, ainda que rapidamente exemplificado, sugere o potencial da música em gerar integração social, pelo estabelecimento de relações colaborativas entre pessoas, e contribuir ao fortalecimento do sentido de comunidade. Afinal, por meio destes encontros musicais, este grupo de haitianos logra vivenciar, de alguma maneira, o seu país de origem, à distância, ao mesmo tempo em que se integra à comunidade brasileira. Estou certo de que o processo de integração desse imigrante teria sido completamente diferente não fosse a presença do elemento musical, enquanto mediador de suas relações.

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